Escola e família são responsáveis em despertar o papel voluntário nas crianças e adolescentes


por Lilian Monteiro, via Estado de Minas

O dia a dia atribulado, cheio de tarefas, o trabalho, a atenção com a família nunca impediram Fabiano Melo de contribuir socialmente. Já não é um menino, mas do alto de seus 50 anos inspira crianças e adultos a se doarem.

Administrador, especialista em gestão em responsabilidade social, com certificação internacional em gestão de projetos sociais, ambientais e humanitários, músico saxofonista e clarinetista, destaca que se tornou um voluntário a partir do exemplo de pessoas engajadas em contribuir para a melhoria da qualidade de vida do outro.

“Sou voluntário há mais de 20 anos. Sempre gostei de cooperar com as pessoas e de estar em campo. Atuei em atividades assistenciais, contei histórias para crianças em internação hospitalar e há 10 anos atuo pelo Dó Ré Mi Fá Sol–idariedade, projeto de voluntariado com o objetivo de compartilhar alegria e bem-estar em hospitais e lar para idosos por meio da música. Desenvolvi esse projeto a partir do incentivo de Cláudia Melo, à época coordenadora da Rede de Amigos do Hospital da Baleia. Até então, eu contava histórias para as crianças em internação”, conta Fabiano.

O Dó Ré Mi Fá Sol-idariedade é um projeto de voluntariado que tem o objetivo de compartilhar alegria e bem-estar em hospitais e lar para idosos por meio da música. A música é sensível, humanizadora, inclusiva. São muitos os benefícios.

Para Fabiano, a música é sensível, humanizadora, inclusiva: “São muitos os benefícios. Ao planejarmos as ações, optamos por locais que têm uma política interna de voluntariado, que proporcionará segurança e ampliará os benefícios a todos. E é importante apoiarmos as organizações na elaboração e implantação de uma política interna de voluntariado.” Ele conta que o voluntariado proporciona aprendizado contínuo, a enxergar muito além de si.
“Costumo dizer que é um estado de melhoria contínua. Por meio do voluntariado, desenvolvo minhas habilidades para o trabalho em equipe, para gestão do tempo e das minhas prioridades, visão sistêmica e para o relacionamento interpessoal. Compreendi que a cooperação é muito mais do que um apoio, é uma potencialidade. Que nos momentos desafiadores, os valores pessoais e a força do propósito formam uma energia impulsionadora para avançarmos com a missão.”
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O voluntariado configura-se como uma prestação de serviço desinteressada em favor de alguém ou de uma causa. Implica doação, seja de tempo ou de recursos, a fim de ajudar um indivíduo ou uma comunidade. E, com certeza, pode ser aprendido. Mas exige disposição para o encontro com o outro e muito despojamento.

“Pessoas, a princípio egoístas, aprendem a dividir e a ver que podem ser felizes com a felicidade que geram no outro. Aprendem que bens materiais não representam muito se comparada a dimensão, não material envolvida”, destaca a psicóloga Ana Regina de Carvalho, especializada em educação inclusiva, que atua como gerente de Desenvolvimento de Instituições no Centro de Atendimento e Inclusão Social (Cais), com foco em ações de inclusão de pessoas com deficiência intelectual e autismo.
Ana Regina revela que, no seu caso, a predisposição para ajudar é uma das suas características pessoais. “Na verdade, a injustiça sempre me incomodou e foi no voluntariado que encontrei uma forma de dar vazão a esse sentimento. Mas ainda faço muito pouco e sei que posso contribuir mais. Já atuei em grupo de jovens, grupo de escotismo e atualmente participo de uma associação de caráter religioso que tem diversas ações comunitárias.”
Para a especialista em educação inclusiva, é papel tanto da escola, do educador quanto da família, pais ou responsável ensinar às crianças e adolescentes o valor de se tornar um voluntário: “São responsáveis numa estreita convergência dos ideais humanitários. Como apregoa a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) – Lei 9.394/96, a educação é um processo contínuo que abrange toda formação oferecida na vida familiar, na convivência humana, nas instituições e nos movimentos sociais, sendo dever da família e do Estado e inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana.

Os quatro pilares da educação elaborados por Jacques Delors e defendidos pela Unesco são: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser, e aprender a conviver, sendo que este último tem o intuito de estabelecer entre todos que existe o pensar diferente e o respeito aos interesses da coletividade. Então, não cabe à escola apenas ensinar os conteúdos escolares, mas promover todo o conhecimento a partir do paradigma do desenvolvimento humano”.
Ana Regina enfatiza que o voluntariado se configura uma prática importante no processo educacional: “Constituir-se em um sujeito letrado é também olhar para fora e redimensionar-se a partir da coletividade.”

Mas como transmitir este ensinamento aos pequenos? “O voluntariado exige e se conforma na prática de doação, dos seus préstimos ao outro, não há como fazer apenas com bases teóricas. Na verdade, é um exercício que faz pensar, mas exige movimento. Crianças aprendem melhor quando fazemos juntos com elas. Assim, dar oportunidade às crianças, mesmo, àquelas muito pequenas, de participarem do voluntário possibilita a chamada aprendizagem significativa, com experiências ricas de interação social que elas não esquecerão jamais”.

O voluntariado exige e se conforma na prática de doação, dos seus préstimos ao outro, não há como fazer apenas com bases teóricas. É um exercício que faz pensar, mas exige movimento. Crianças aprendem melhor quando fazemos juntos com elas. Assim, dar oportunidade às crianças, mesmo, àquelas muito pequenas, de participarem do voluntário possibilita a chamada aprendizagem significativa, com experiências ricas de interação social que elas não esquecerão jamais

Ana Regina de Carvalho, psicóloga especializada em educação inclusiva, que atua no Cais

Para Ana Regina, os pais também podem ensinar: “Aqui vale aquela máxima: a palavra convence, o exemplo arrasta. Quando os pais são praticantes do voluntariado, o exercício da doação é natural na criança. Com o exemplo dos pais, ela vai aprendendo o quanto é importante servir ao outro e o que significa isso para sua vida.”

RETORNO DE ENERGIA 

Ana Regina afirma que a humanidade está cada vez mais solidária e evoluída. Se antes as pessoas começavam com o trabalho voluntário quando já “liberadas” das responsabilidades trabalhistas, aposentadas, muitas têm encontrado tempo para se doar. A psicóloga, aliás, destaca a importância do voluntariado para a saúde mental.

Ela cita que estudos científicos já comprovaram que pessoas gratas são mais felizes, sofrem menos estresse diários e por conseguinte sofrem menos doenças. A gratidão advém da generosidade e alimenta um ciclo virtuoso e saudável no relacionamento social.

“Acredito que estamos imersos em uma energia vital e tudo que fazemos aos outros retorna para nós mesmos, energeticamente. Então, tudo que geramos retorna por questão de proximidade. Muitos falam que, ao ajudar, recebem muito mais… Certamente, porque a gratidão das pessoas mobiliza o que há de melhor nelas e isso volta para você. Um sorriso, um abraço e a satisfação das pessoas não têm preço”, afirma.


VOLUNTARIADO ON-LINE, CONHECE?

O voluntariado on-line permite que organizações e voluntários se associem para enfrentar conjuntamente os desafios para alcançar o desenvolvimento sustentável, em qualquer lugar do mundo, por meio de qualquer dispositivo eletrônico. Voluntariado on-line é rápido, fácil e, acima de tudo, eficaz. E não é uma novidade.

O programa de trabalho voluntário da Organização das Nações Unidas (ONU) há anos incentiva que as pessoas contribuam de forma remota. E como participar? De que forma ajudar? As possibilidades são inúmeras. Há pessoas que se conectam com idosos para socializar e acompanhá-los durante a pandemia e o isolamento, outros oferecem aulas ou acompanhamento escolar para crianças.

Tem grupos que se mobilizam para arrecadar de cestas básicas, a roupas, cobertores e equipamentos eletrônicos que podem ser doados, e todo tipo de arrecadação on-line. Basta encontrar o projeto que lhe agrada e participar.

Aqui, sugestão de dois caminhos. 
O programa on-line da ONU, onde encontrará detalhadas todas as funções e áreas necessárias para contribuição. Outra opção é a entidade Médicos Sem Fronteiras, que tem trabalho virtual.

(foto: Gerd Altmann/Pixabay)

Fonte: https://www.em.com.br/app/noticia/bem-viver/2021/08/22/interna_bem_viver,1297288/voluntariado-a-palavra-convence-o-exemplo-arrasta.shtml