Por Mariana Lima, via Observatório do Terceiro Setor

Sandra Santos fundou o projeto social Casa Mãe Mulher, que atende mulheres com filhos cumprindo medidas socioeducativas em Belford Roxo, no Rio de Janeiro

Antes de criar um projeto social para ajudar familiares de adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas em Belford Roxo, no Rio de Janeiro, Sandra Santos, hoje com 56 anos, precisou enfrentar muitas batalhas na própria vida.

Com cinco anos de idade, foi separada da mãe. Saiu de Casimiro de Abreu, onde nasceu, na região dos Lagos, e foi morar na casa de uma tia, em uma comunidade de São Cristóvão, zona norte da capital fluminense. Sua mãe não tinha condições de cuidar dos seis filhos.

Depois de sete anos com os tios e os primos, foi trabalhar na casa de um desembargador no Engenho Novo, também na zona norte do Rio. Com apenas 12 anos, Sandra começou a atuar como empregada doméstica em um casarão de uma família rica da cidade. Foram 14 anos nesse emprego sem receber um centavo.

A antiga patroa a fazia trabalhar de oito horas da manhã até as três da madrugada, para dificultar seus estudos. A consciência da importância de se agarrar nos livros e nos ensinamentos veio através das professoras da escola, que levavam para a turma histórias de superação e motivaram Sandra a ter um destino diferente daquele que sua realidade parecia desenhar.

Cursou duas faculdades (teologia e serviço social, ambas em instituições privadas de Nova Iguaçu pagas por ela mesma) e cursa pelos próximos dois anos uma formação em psicanálise. Em breve será teóloga, assistente social e psicanalista.

Sandra trabalha no Centro de Atendimento Integrado (CAI), uma das unidades do DEGASE, em Belford Roxo. Ficou sete anos como cozinheira, passou para o almoxarifado e quando foi realocada para a portaria, guardando os pertences das famílias nos dias de visitas, percebeu o sofrimento das mães com filhos cumprindo medidas socioeducativas. Decidiu então humanizar a situação daquelas mães e criou o projeto social Casa Mãe Mulher.

A iniciativa nasceu em 2011, com uma barraca em frente ao CAI, onde oferecia às mulheres com parentes na unidade um local para sentarem, sombra, café, comida e acesso a um banheiro.

Hoje, a organização de Sandra está em uma casa mais estruturada na mesma rua do CAI de Belford Roxo. O imóvel é uma típica casa do subúrbio fluminense, com aspecto de 1970. Tem muro baixo revestido de azulejo amarelo e por cima uma grade vermelha vazada, por onde é possível ver a grande varanda com uma mesa no meio, sempre com comida disponível, e duas rodas de conversa, apenas com mulheres.

A ONG de Sandra fica de frente para o local onde as filas para visita se formam todas as quartas e sábados. É possível ler grafitado no muro alto do outro lado da rua: “Se eu pudesse fazer um pedido, desejaria você aqui comigo“.

A Casa atualmente ajuda 100 famílias e não conta com doadores fixos. Sandra está sempre em busca de doações, mas conta com a ajuda de aproximadamente 10 voluntários. O projeto social oferece roda de leitura, roda de conversa, apoio emocional e prático para as mães.

Fonte: UNIVERSA | UOL

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Matéria Original: https://observatorio3setor.org.br/noticias/apos-viver-situacao-analoga-a-escravidao-mulher-funda-projeto-social/