Ações de Bolsonaro já parecem incapazes de bloquear início do processo. Mas há outro obstáculo: imunizantes da Pfizer adquiridos são insuficientes e Coronavac, a solução plausível, ainda não está liberada

por Gabriela Leite, via Outras Palavras

Já se passaram 29 dias desde a manhã em que a Anvisa concedeu autorização para que as crianças tomassem a vacina da Pfizer/BioNTech contra a covid. Mesmo assim, até agora, nenhum brasileiro com 11 anos ou menos foi imunizado. Mas ontem, a vacinação pediátrica teve vitória dupla: a primeira remessa da Pfizer, contendo 1,2 milhões de doses, desembarcou em Campinas (SP) – e elas podem começar a ser aplicadas a partir de hoje. Poucas horas depois, representantes do Instituto Butantan e de sociedades médicas se reuniram com técnicos da Anvisa para prestar os últimos esclarecimentos em relação à vacina da CoronaVac para o público de 3 a 11 anos, em caso de sua aprovação. A agência deve emitir dentro de alguns dias seu parecer definitivo. As perspectivas são favoráveis, mas a definição ainda pode demorar 14 dias.

O Brasil não conseguirá completar a imunização dos menores de 11 anos apenas com a vacina da Pfizer. Como se sabe, o imunizante específico preparado pelo laboratório para essa faixa etária tem formulação diferente da utilizada em adultos – e por isso precisa ser comprado à parte. O Brasil fechou um contrato de 20 milhões de doses com a farmacêutica norte-americana, mas para oferecer as duas doses necessárias, precisará do dobro: a população-alvo é de 20,4 milhões. Em janeiro, espera-se que recebamos 4,3 milhões; 7,2 milhões em fevereiro e 8,4 milhões em março. O primeiro lote já parece insuficiente: o prefeito de Salvador, Bruno Reis, alertou que faltam doses até para vacinar apenas a faixa etária inicial: “Infelizmente só estão chegando 16 mil doses e temos um universo de pouco mais de 20 mil crianças com 11 anos em Salvador”, falou ao G1.

Uma saída para a rapidez na vacinação infantil está clara, e o governo federal não poderá ignorá-la por muito mais tempo. A vacina produzida pelo Butantan pode ser aplicada em crianças com a mesma formulação para adultos. Já foi aprovada em diversos países — e vem sendo aplicada com sucesso em dezenas de milhões de crianças. Além disso, está disponível em diversos estados – que inclusive já se prepararam para o início da imunização pediátrica. O estado de São Paulo tem uma reserva de 12 milhões de doses apenas para essa finalidade, e o governador João Doria afirma que poderia vacinar todas as crianças em dez dias. Há ainda outra vantagem: a CoronaVac pode ser utilizada também em brasileiros de 3 e 4 anos, enquanto a Pfizer só deve ser aplicada a partir dos 5. O ministro Marcelo Queiroga já cogita a compra de doses do imunizante do Butantan, mas o presidente do Instituto, Dimas Covas, disse recentemente à coluna de Igor Gadelha no Metrópoles que não foi procurado pelo ministério da Saúde. 

No último mês, o presidente Bolsonaro conseguiu controlar a pauta da vacinação infantil como há bastante tempo não era capaz. Em um país onde a aceitação das vacinas está entre as melhores do mundo, ele espalhou mentiras e emplacou uma consulta pública para saber se a população endossava a exigência de receita médica para imunizar crianças. Perdeu, e o caminho abriu-se para o avanço da proteção dos brasileiros. Já passou da hora: a ômicron está causando forte onda de infecções, e registra-se que ao menos 324 crianças já morreram de covid, desde o início da pandemia.

Fonte: https://outraspalavras.net/outrasaude/vacinacao-infantil-delonga-pode-estar-chegando-ao-fim/

Imagem: Menina de 8 anos recebe vacina da Pfizer contra a Covid-19 em hospital de Hartford, Connecticut, em 2 de novembro – mesmo dia em que o CDC recomendou que crianças de 5 a 11 anos fossem imunizadas com a vacina. — Foto: Joseph Prezioso / AFP