Sufrágio feminino no Brasil lutou pelo direito das mulheres de estudar, trabalhar, votar e até de se divorciar

Por Iara de Andrade, via BBC Brasil

Mulheres brasileiras que viveram no começo do século 19 não tinham o direito de estudar, trabalhar, votar nem de se divorciar.

É sabido que até 1830, baseado nas Ordenações Filipinas, conjunto de leis de origem espanhola que Portugal aderiu e implantou no Brasil colônia, as esposas podiam ser castigadas fisicamente pelos maridos.

O Código Civil de 1916 julgavas as mulheres como incapazes de realizar certas tarefas, por isso, casadas dependeram de autorização formal do marido para trabalhar até 1962.

As restrições já existiam nas escolas também: até 1854, meninas tomavam aulas de corte, costura e outras “prendas domésticas”, enquanto os garotos aprendiam ciências, geometria e operações mais avançadas de matemática.

O acesso amplo às universidades pelas mulheres só aconteceu a partir de 1930, décadas após a unificação do currículo no ensino básico.

Já o direito ao voto aconteceu com a promulgação do decreto nº 21.076 de 24 de fevereiro de 1932. Conheça quatro protagonistas na luta pelo sufrágio feminino no Brasil:

Nísia Floresta: acesso à educação

Precursora dos movimentos pela conquista dos direitos das mulheres no Brasil, Dionísia de Faria Rocha foi professora e fundou, em 1838, um colégio para meninas com um currículo amplo, para além de aulas sobre costura e boas maneiras, apesar de não as ter eliminado.

No colégio Augusto, as garotas aprendiam latim, francês, italiano e inglês, além de geografia e história, o que fez da escola alvo de duras críticas pelos jornais cariocas durante os 18 anos de seu funcionamento.

Leolinda de Figueiredo Daltro: o primeiro partido feminino

Em uma época em que a maior parte das iniciativas educacionais estavam submetidas a agremiações católicas, a professora Leolinda estava voltada para a incorporação dos indígenas à sociedade brasileira através do ensino laico. Nos anos 1890, percorreu o interior do país alfabetizando comunidades de povos originários.

Mesmo sem o direito das mulheres ao voto, fundou, em 1910, o Partido Republicano Feminino (PRF), no Rio de Janeiro, o primeiro do tipo no país e não reconhecido oficialmente. Comparado ao movimento sufragista na Inglaterra, o partido era constantemente ridicularizado e foi alvo de campanhas difamatórias nos jornais da época.

Bertha Lutz: o primeiro congresso feminista

Bertha Maria Júlia Lutz foi bióloga e adentrou na causa durante a internacionalização do movimento feminista da América Latina, já integrado às redes europeias.

Fundou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher (LEIM), em 1919, que, entre outros objetivos, pretendia articular a aprovação do sufrágio feminino. Em 1922, a LEIM se torna Federação Brasileira para o Progresso Feminino (FBPF) e organiza o Primeiro Congresso Internacional Feminista do Brasil, no Rio de Janeiro.

Almerinda Gama: feminismo sindicalista

Almerinda Farias Gama era datilógrafa e escritora e deixou o estado do Pará por melhores condições, após repetidas procuras de emprego nos quais sempre lhe eram oferecidos salários inferiores aos pagos aos homens. Foi no destino, Rio de Janeiro, que conheceu e se aproximou da FBPF, na qual desempenhou, entre outras coisas, a função de ligação entre a entidade e a imprensa carioca.

A partir de 1934, deixa a Federação e segue trabalhando como datilógrafa e atuando próximo a sindicatos e ao núcleo do movimento negro em Madureira, no subúrbio do Rio de Janeiro. Fundadora do Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos do Distrito Federal, foi a única mulher a votar como delegada eleitora na Assembleia Nacional Constituinte de 1933.

Foto: Participantes do II Congresso Internacional Feminista no Recreio dos Bandeirantes (RJ) – conquista da foto teve muitas protagonistas | Arquivo Nacional

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-60501066